Entrevista Euro S.R. / Oscar D´Ambrosio

(Entrevista realizada em 2008 – por e-mail – pelo crítico de arte Oscar D’Ambrosio da UNESP-Universidade Estadual Paulista com o artista Euro S. R.).

Local e data de nascimento.

São Paulo-SP 12/abril/1947.

Influências e viagens que você julga essenciais para sua carreira.

Para mim, é sempre difícil falar de influências em minha carreira. As influências foram muitas e variadas — do erudito ao popular, do tecnológico ao artesanal e do internacional ao nacional- mas sempre de maneira indireta e “antropofágica”, meio que enquadrando as questões do “influenciador” às questões que me inquietavam no momento.

Mesmo artistas que muito me instigaram em meu início, como Flávio de Carvalho e Joseph Beuys, tiveram suas – possíveis – influências devidamente reprocessadas, a ponto de se diluírem imperceptivelmente em minha obra. Na verdade, eu sempre fui muito mais um apropriador, um “saqueador”, que um discípulo. (A esse respeito ver o texto “O ÓBVIO OCULTO” em meu site:http://eurosr.com.br/?p=56).

Quanto às viagens (inclusive as de carona que fiz pelo interior do Brasil no final dos anos 60 e início dos 70 do século passado), sem dúvida que me influenciaram, mas sempre de uma maneira indireta, muito mais de forma assimilativa que impactante. (A esse respeito ver o texto “A ARTE ESTÁ NAS RUAS” em meu site: http://eurosr.com.br/?p=47).


Como foi seu início nas artes plásticas ?

Meu início nas artes plásticas foi em 1967, no Curso Brasiliense, em São Paulo, com o pintor Ubirajara Motta Lima Ribeiro.

Você vive só de sua atividade artística ou tem outra profissão ?

Vivo só de minha atividade artística, não tenho outra profissão.Mesmo com MUITA dificuldade e de uma maneira quase monástica, hoje vivo única e exclusivamente de e para as artes plásticas. Trabalhei com arquitetura e construção civil (sou arquiteto de formação), com música (atuei como baterista e professor de música), além de um brevíssimo período fazendo figuração em cinema e TV, mas fui abdicando de todas essas atividades para dedicar-me integralmente à minha arte.

Alguém descobriu você para a arte ou o ajudou a desenvolver o seu trabalho ?

Ninguém me descobriu para a arte ou me ajudou a desenvolver meu trabalho: Meu trabalho foi sempre realizado desvinculado do mercado, fora do meio acadêmico, alheio a qualquer instituição, não contando com nenhuma parceria e sem qualquer tipo de patrocínio. Não por opção, mas por inevitável contingência.

Com uma atuação essencialmente de franco-atirador, que, se por um lado tem me dado uma certa autonomia de ação e uma relativa independência de pensamento, por outro, me tem alijado completamente do “circuito”, com as previsíveis conseqüências de instabilidade econômica em minha vida pessoal. Meu trabalho tem sido única e exclusivamente resultado de minha obstinação.

Como você define e caracteriza sua obra ?

Desenvolvo um trabalho em cima do conceito de PALIMPSESTO, o palimpsesto entendido como uma busca do encoberto, como o afloramento do submerso, do subjacente. Um trabalho com o sentido da memória, do trazer à luz, emergência do subjugado, do censurado, do esquecido, do recalcado. Raspagem do texto anterior e re-escritura de um novo texto que não consegue esconder/apagar totalmente o antigo.

O palimpsesto como uma reflexão sobre o contemporâneo. Com suas junções e superposições de tecnologias; com suas interferências, apropriações e operações intercódigos; confronto entre linguagem e linguagens.

Quais são seus planos para os próximos anos ?

Para os próximos anos meus planos se concentram na questão da sobrevivência; minha, pessoal, e da minha obra. Em conseguir uma estrutura mínima para o meu sustento e para dar sustentação à minha produção, realizada até aqui “de favor” em ateliê de uma pintora amiga e guardada em condições precárias de conservação e armazenagem.

No entanto, esta precariedade econômica não me impediu e num certo sentido até me instigou, a em todas as encruzilhadas, optar pela obra em detrimento da carreira.

O que faz com que eu tenha hoje, apesar de todos os percalços, uma obra em construção e um corpus teórico sobre ela. (Vide site http://eurosr.com.br/?cat=5) .

Qual é a sua formação religiosa ? É importante para a sua obra ?

Minha formação religiosa é a familiar, da infância. Eu não sou, no entanto, uma pessoa religiosa.
A religião não é importante para mim nem para a minha obra.

Você tem alguma temática preferida ? Qual ? Por que ?

A partir de 1990, assumindo idéias, estudos, esboços e reflexões que vinha elaborando já há algum tempo, inicio a construção de uma pesquisa cujo fundamento é este conceito de PALIMPSESTO.
Resultado de uma longa inquietação, vinda das décadas anteriores, nas quais a minha relação com as artes plásticas havia sido sempre uma relação conflituada, uma relação de amor e ódio, o seu vezo elitista me causando — ontem como hoje — o mais profundo incômodo.

Não podendo e não querendo fazer o já feito e insatisfeito quanto a cursos formais e ensino de um modo geral, ao mesmo tempo em que não me identificava plenamente com nenhuma tendência, escola ou movimento, me retraí, me afastei.

Pois, se eu ainda não sabia direito o que queria, sabia perfeitamente o que não queria. Com a efetivação dessa pesquisa, acabo finalmente encontrando o meu caminho.

Há etapas definidas em sua carreira ? Quais são ?

A minha carreira tem duas etapas bem definidas: antes e depois dos PALIMPSESTOS, sendo o ano de 1990 o seu ponto de inflexão. Se àquela altura eu, ainda que de maneira insegura e tateante, não tivesse encontrado essa direção, muito provavelmente, hoje eu não seria um artista plástico, dando murro em ponta de faca e lutando com unhas e dentes pela minha arte, mas estaria trabalhando com música ou arquitetura.

Também é interessante que você me envie seu currículo e curiosidades sobre a sua vida e carreira que possam me ajudar a escrever um texto bastante abrangente sobre seu trabalho.

Meu currículo, fotos das obras e textos de reflexão sobre o meu trabalho — e por extensão sobre a arte no século XXI – podem ser baixados diretamente de meu site: http://eurosr.com.br .

Esta entrevista resultou no texto ” ESCAVANDO A CONSCIÊNCIA” postado na página :
http://www.artcanal.com.br/oscardambrosio/eurosr.htm

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