Palimpsestos

Novo Dicionário da Língua Portuguesa
(Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira)

PALIMPSESTO: [Do grego Palímpsestos “Raspado Novamente”, pelo Latim Palimpsestu] S.M.

 1. Antigo material de escrita, principalmente o pergaminho, usado, em razão de sua escassez ou alto preço, duas ou três vezes (duplo palimpsesto), mediante raspagem do texto anterior.
 2. Manuscrito sob cujo texto se descobre (em alguns casos a olho desarmado, mas na maioria das vezes recorrendo a técnicas especiais) a escrita ou escritas anteriores.

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“Produzir arte é produzir, dentro das dificuldades, possibilidades para a arte. “

 Waltercio Caldas (“Jornal do Brasil” – 16/10/2000)

 “Acontece vez por outra, quando procuramos

Objetos perdidos, um livro uma foto ou

Uma moeda ou uma colher,

Alguma coisa atravessa nossa mente…

Não realmente uma sombra mas o que uma sombra viria a ser

Num lugar em que faltava luz. “

Mary Swann (in “Coisas perdidas”)

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Palimpsesto: raspagem do texto anterior e re-escritura de um novo texto que não consegue esconder / apagar totalmente o antigo. O palimpsesto como uma busca do que está “por trás”, do escondido, do recôndito, do camuflado, do subjugado, do censurado, do esquecido, do recalcado, que tende a emergir. O trabalho, assim, se processando em várias camadas de papel (canson, kraft, vergê, jornal, cartão, vegetal, couchê, alumínio, estanho, etc), entremeadas de interferências (telas, tecidos, couros, chapas radiológicas, fibras, metais, etc.) que emergirão após a raspagem ou lavagem do papel de face.

A lixa, o estilete e a água fazendo surgir o que está por trás. A água dissolvendo a primeira folha de papel, fazendo aparecer os “palimpsestos”.

A água, a lixa e o estilete funcionando quase como um procedimento arqueológico nas várias camadas de papel, dialogando com a “camada atual” (novo texto) que é onde se realiza a pintura (acrílica, vieux-chene, resina, ferrugem, esmalte, verniz, etc), contrapondo o olhar concentrado ancestral ao olhar perscrutador contemporâneo.

O palimpsesto como uma reflexão sobre o contemporâneo. Dialética do universal e do específico. Tensão entre uniformidade e diversidade. Confronto entre linguagem e linguagens.

Rio, fevereiro de 2001.

Euro S.R.

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Enquanto a maior parte da arte (ocidental e ocidentalizada) do século XX (principalmente a partir de sua segunda metade) fez o movimento no sentido de sair do plano e ir para o espaço (real ou virtual), o meu trabalho fez-se no sentido inverso, isto é, fez-se no sentido de entrar no plano, escavá-lo, perfurá-lo, prospectá-lo, à procura do que está por trás do plano, de seus substratos, de suas camadas subterrâneas, de suas motivações ocultas, de seus sambaquis, seus cemitérios clandestinos, seus aterros “sanitários”. Retirando arqueologicamente camadas, em busca do ocultado e do quanto de passado podemos ainda suportar dentro de nós.

Daí que a produção de textos de reflexão que foram “organicamente” se impondo e passaram a se desenvolver paralela e complementarmente à produção das obras, se constituem hoje, mais que meros “relatórios técnicos de escavação”, em uma necessidade (quase) vital à realização (e continuidade) deste trabalho.

Rio de Janeiro, maio de 2006.

Euro S.R.

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As Três Vertentes de Minha Pesquisa

A minha Pesquisa se realiza simultaneamente em três vertentes:

1. Os “Palimpsestos Autônomos”

Trabalhos com dimensões em torno de 50 por 70 cm, autônomos, na medida em que, mesmo utilizando a mesma linguagem e inseridos na mesma poética,  são independentes entre si.

2. As Séries

Constituídas por 25 ( vinte e cinco) trabalhos cada, com dimensões variando de série para série, mas sempre iguais dentro da mesma série, em que as obras se articulam dentro de um mesmo tema, embora mantendo com os “palimpsestos autônomos” as mesmas técnica, linguagem e poética.

3. Os “palimpsestinhos”

Trabalhos de pequeno formato, em torno de 12 por 17 centímetros, que foram (e num certo sentido continuam sendo) o embrião e a gênese de minha obra, pois tem sido desde sempre o “balão-de-ensaio” de toda essa pesquisa, cuja metodologia tem como paradigma o impulso exploratório e a dúvida – a orientação pela verdade tão incerta e subjetiva quanto a orientação pela beleza – , no que poderíamos chamar de uma “metodologia da inquietação”.

Rio de Janeiro, outubro de 2006.

Euro S.R.

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Metodologia da Inquietação

OS PALIMPSESTINHOS 12