O que foi apagado volta à tona

Euro é o vento que vem do Leste. É antigo assunto grego muito antes de moeda contemporânea. Daí o nome desse arqueólogo de escavações rasteiras, desse artista que ventou da música para o ofício da “água que dissolve o que se acumulou no tempo”.

Sim, esses seus papéis bizantinos, prenhes de betume da judéia e de toda sorte de pigmentos que possam compor sua tinta artesanal, são lavados e deslavados – os levados – até confessarem o que estava oculto.

Euro fala dessa “raspa arqueológica” que faz o que foi apagado voltar à tona. Para isso capricha na analogia de seus papéis com os palimpsestos, aqueles documentos que nos assombram por revelar uma camada de teoremas matemáticos ocultos sob uma pintura de orações.

Euro parece conformar-se com revelações desajeitadas quando conclui: “o que aparece nem sempre é o que se planejou”. Certo, mas meu ceticismo ‘básico’ me diz que não é tão simples aceitar que o não-planejado saia andando por aí. Me diz que se é doce acreditar que os acidentes “felizes” são obra de um destino que nos ama, talvez tenhamos que ‘esquecer’ alguns aspectos ‘não-planejados’ para professar com alívio essa fé.

Digo isso porque essa superfície quase sacra que Euro apresenta em seus ensaios para-arqueológicos é, na verdade, produto de um cavucar/cutucar alquímico praticado num aglomerado de impressos pop que fica oculto sob as vetustas massas de matéria/cor da culinária do artista. Essa massa Pop é uma não-arte que o artista reconhece existir, mas não mostra, mesmo que aqui e ali venham a emergir uns icebergzinhos de imagens.

Não, Euro, não cabe a você escavar seus próprios palimpsestos. A alguém mais caberá descobrir o artista Pop varrido para debaixo do tapete.

Hilton Berredo, abril de 2008

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