Ancestralidades Contemporâneas

O obscuro, acaba sempre por criar um universo de desejo, uma vez que o desejo é a força para se possuir o desconhecido.

A ancestralidade, roubada de sua última patina, num constante ciclo de lavagens, mostra-se, afinal, contemporânea.

O objeto de arte, não é nem poderá ser nunca, um objeto etnográfico ou arqueológico.

A arte atua no seu próprio tempo.

Vestígios e remanescências no despojo de seus traços, acabam por suscitar a criação de uma maneira de ver que desloca os signos para uma linguagem inusitadamente contemporânea. Pelo seu caráter desarraigado e sazonal, como que roubados, despidos e deformados.

Mistério não desvendado de suas origens, ignorância acerca de seus rituais e propósitos, intacto enigma.

As origens com a dimensão de uma perda.

Memória fragmentada.

Com um certo tipo de fragmentação característica da arte contemporânea. Sinais ausentes de seu próprio sentido.

O arcaico, o ancestral, deslocado de seu tempo transforma-se em enigma, em caos.

O novoantigo caos contemporâneo, com o afloramento de toda a historicidade do homem.

Um caos com uma completude enciclopédica.

O contemporâneo é apropriação e acumulação.

A arte contemporânea é apropriação e acumulação. É a prevalência do plural. Emergência do negligenciado, do excluído, o contemporâneo não pode ser emoldurado, fetichizado, tipificado, classificado.

O recôndito, o obscuro, o subjugado, o esquecido, precisam de força para ocupar o seu lugar.

O que se oculta sob as aparências, desponta. Mesmo que filtrado por impositivos véus. Que em vez de mascarar, acabam por revelar.

A ingenuidade arcaica e a invenção contemporânea mesclando-se em esquivos cadinhos.

A intuição e o conceituai como espinhos para os olhos.

No mundo contemporâneo não há e nem pode haver inocentes.

O antigo, contraditoriamente, contribuindo para a compreensão do pensamento contemporâneo.

Numa época em que os aglutinadores culturais e ideológicos encontram-se bastante difusos.

Transparências em meio à opacidade de uma linguagem estabelecida e codificada, com a obra de arte, às vezes substituída pelo desejo estético.

A esfera estética e o mundo das aparências.

As aparências enganam. E a arte é o falso.

Mas a única forma de falar a verdade é através do falso.

No contemporâneo, a arte se dá na produção de sentidos.

No cruzamento, na contaminação, na intervenção.

Mas essa permeabilidade, mais que uma previsível permeabilidade de técnicas, se dá principalmente numa permeabilidade de linguagens, culturas, épocas e desejos. Ou seja, numa permeabilidade com o subterrâneo e o subjacente. A arte superando o meramente utilitário.

E utilitário, aqui entendido também como o meramente estético.

Descobrir imprevisíveis aspectos da realidade é o pressuposto fundamental da obra de arte contemporânea.

O que a coloca, contraditoriamente, num imbricamento com o arcaico.

Amadurecer significando voltar a ser criança.

Dando novo sentido ao esquecido, numa hibridação do tempo.

Mais que uma linguagem, o contemporâneo é uma atitude, um comportamento, um entendimento.

O espectro do contemporâneo é muito mais amplo do que o de sua visão acadêmica (independente de sua indiscutível importância).

O cânone, o paradigma acadêmico, é apenas um, dos vários pontos de vista.

Não é o único e nem necessariamente o melhor.

Coisas que permaneciam latentes ou eram dadas como perdidas são trazidas à luz.

Sociedades opacas pedem uma arte transparente.

A arte que em sua origem foi magia, em sua atualidade é criadora de alfabetos, isto é, de um certo tipo de memória.

A humanidade, como a arte contemporânea, é feita de fragmentos.

Rio, outubro de 2001.

Euro S.R.

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