“A arte não reproduz o visível, mas torna visível”
Paul Klee (em “Confissões de um Criador”).
“Quem diz,
não mente:
na mão de um fraco
sempre morre um valente ”
Nelson Cavaquinho e José Ribeiro de Souza
(em “História de um Valente “)
A beleza não está na natureza: ela é o achado menos natural que o homem pôde conceber.
A beleza é um conceito. (Do mesmo modo que a não-beleza). Relativo como todo conceito. Que quando absoluto se transforma em preconceito.
Criadora de alfabetos, a arte não trabalha exatamente sobre o real, ela constrói o real, ela torna visível.
Ela não imita, é como. Em sua habilidade para captar os traços essenciais de seu tempo e desvendar novas realidades, ela tem comopressuposto fundamental tornar o mundo mais consciente de si mesmo, isto é, descobrir imprevisíveis aspectos da realidade.
Criadora de um certo tipo de memória, a arte é mais verdadeira que a história.
O real, de um certo modo, só pode ser contemplado através da arte.
A modernidade, exigindo adesão total (não era possível ser meio moderno) forjou o aspecto totalitário e autoritário da arte moderna. O novo não podendo ser substituído por um outro novo, pois seria um novo definitivo. (“No século XX, uma só cultura reinará sobre a totalidade do globo” – Adolf Loos in “Culture”).
E o moderno, intolerante e injusto, acabou por parir o pós-moderno, cínico e indiferente.
A ascese modernista, com seu despojamento, higiene e eficácia, mais que a beleza, buscava a elegância, a distinção, a sobriedade e a altivez.
A modernidade se constituiu em um autoritarismo utópico.
Ao mesmo tempo que o capitalismo era basicamente hostil à arte, favorecia o seu desenvolvimento, ensejando a produção de grande quantidade de trabalhos, multifacetados, expressivos e originais. A arte se transformou em mercadoria-subordinada às leis da competição – e o artista em produtor de mercadorias.
A liberdade abstrata do capitalismo propiciou o aparecimento do artista “livre”, possuidor de uma liberdade que chegou à mais gélida das solidões.
Na pós-modernidade, a história da arte, a grande quantidade de museus e a facilidade das viagens internacionais, acabaram transformando a produção universal da arte num repertório quase ornamental.
Perdendo o caráter crítico, contestador e subversivo da modernidade, a pós-modernidade foi apropriada em vez de se apropriar e, como sintoma, se converteu apenas em um autoritarismo cínico.
A arte contemporânea é caudatária a este autoritarismo.
A modernidade começa com a Comuna de Paris (1871) e termina com o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima (06/08/1945).
O moderno foi basicamente europeu e burguês.
Com a nova classe – a burguesia – afirmando definitivamente sua vitória (e sua vitalidade) tanto em relação ao velho (aristocracia) como em relação ao novíssimo (povo / proletariado).
A pós-modernidade começa com a explosão da bomba de Hiroshima e termina, sintomaticamente, com a explosão das torres gêmeas do World Trade Center em Nova York (11/09/2001).
O pós-moderno foi basicamente norte-americano e capitalista. Afirmativamente capitalista.
Os novos tempos (século XXI) se afiguram como tempos da cultura do mundo.
Tempos de maioridade e auto-afirmação. De estranheza e familiaridade.
Tempos de pluralidade, heterogeneidade e complexidade. Tempos do incomensurável, do desmedido, do esmagado, do paradoxo e do indizível.
Tempos daquilo que não cabe dentro das coordenadas vigentes do entendimento, do gosto e da ética, onde o bárbaro-como o inferno – são (sempre) os outros.
Tempos parricidas, em que as crianças crescem, os bárbaros estão nos arredores e “os príncipes, como os caranguejos, comem seus próprios pais”.
A cultura destes tempos só poderá ser uma cultura babélica e bárbara.
Bárbara na acepção etimológica do termo, isto é, estrangeira. E num certo sentido, invasora, pois o termo bárbaro é sempre aplicado a quem está de fora, excluído da norma dominante e dominadora.
Uma cultura com uma arte não mais sob controle de uma única comunidade artística, com toda sua carga de preconceitos e etnocentrismo.
Não mais interessando a estética uniforme do gramado, conseguida às custas da repressão uniformizadora do aparador de grama, mas a estética da floresta tropical, aparentemente caótica em sua multiplicidade, mas de um profundo equilíbrio (ecológico) na diversidade e na diferença.
A ordem tem em si o desequilíbrio e a instabilidade, a tirania da uniformidade.
A desordem, por outro lado, possui o equilíbrio da diversidade.
A ordem na natureza não é o controle estratificado, mas a organização da complexidade.
A simbiose é um aspecto central da vida.
“Ervas daninhas” e/ou “pragas” são apenas um desequilíbrio do ecossistema, uma conseqüência da ordem autoritária e uniformizante.
As relações entre os organismos vivos não são predatórias, mas essencialmente cooperativas, caracterizadas pela coexistência e a interdependência.
A competição na natureza ocorre num contexto mais amplo de cooperação, de modo que o sistema maior é mantido em equilíbrio.
Os darwinistas sociais só conseguem ver a vida como competição, luta e destruição, concepção que ajudou a criar a filosofia que legitima a exploração e o impacto desastroso da tecnologia sobre o meio ambiente natural. Concepção que não possui qualquer justificação científica.
Os sistemas vivos, ao contrário, se organizam sob princípios integrativos e cooperativos.
A agressão excessiva, a competição e o comportamento destrutivo são aspectos predominantes apenas dentro da espécie humana.
São valores culturais e não naturais. Como a arte.
A arte contemporânea, no século passado, se transformou em uma estética autoritária e em uma arte escolástica.
Pelo seu viés acadêmico, de arte institucionalizada e internacional, de linguagem única e globalizada, se transformou em um “estilo”, em “arte de museu”, onde a uniformidade prevalece sobre a pluralidade numa atitude claramente censória e hierarquizada, se constituindo neste início de século em um “realismo capitalista” oficial e subvencionado, no qual a censura foi apenas privatizada e a diversidade é uma espécie ameaçada.
Encastelando-se em suas “torres de marfim”, com seu clichês, metáforas esgarçadas e formas de juízo não discordantes, acabou por perder a capacidade de pensar a totalidade de seu tempo. Onde as torres estão sendo derrubadas e a arte prospera graças às diferenças.
Se a arte moderna foi revolucionária, a arte contemporânea foi apenas elitista, egocêntrica e auto-referente.
O guisado da arte contemporânea acabou ficando com muita batata e pouca carne.
E o contemporâneo ainda tem muita carne debaixo de seu angu.
No entanto, apesar de seu esnobe cosmopolitismo, de seu pretensioso artesanato conceituai e de um onipresente conformismo blasé, a arte contemporânea tem produzido muita coisa séria, densa, consistente e de verdadeiro interesse.
A questão, na verdade, não é a velha arte contemporânea em si, mas o fato dela ser uma arte uníssona. E o contemporâneo – cujo conceito ela quer monopolizar – é polifônico.
Polifônico e polissêmico.
O contemporâneo é plural.
O que faz com que a arte contemporânea sejam artes contemporâneas.
O contemporâneo pede uma arte sem a hierarquia acadêmica, onde o discurso tem uma função ordenadora e/ou disciplinadora.
Os novos tempos pedem um olhar bárbaro, isto é, um olhar metabólico. Um olhar não turvo, mas transparente.
Só o olhar bárbaro é capaz de revelar o óbvio oculto.
Olhar palimpsestico, que por trás da superfície fundamentalista desvenda o óbvio oculto.
Óbvio oculto, ocultas armadilhas.
Recompor vozes silenciadas, gestos invisíveis.
Coisas que retiradas do esquecimento se coagulam.
Mediadas pelo sofrimento, pela exclusão e pelo apagamento do heterogêneo e da diferença.
A memória transformada em linguagem.
Território conflagrado de mutilações, cortes e rupturas.
Verdade encoberta.
A verdade como uma arma.
Verdade apócrifa, isto é, escondida.
A linguagem como meio de descoberta de uma verdade até então desconhecida e não o meio de apresentação de uma verdade já conhecida.
Verdade: verdades.
Mundo de significados ocultos.
Dos que não são vistos ou ouvidos, a indiferença fazendo parte da trivialidade.
Não é o olhar para adiante e sim o olhar para trás que cria a idéia de um propósito.
No mundo contemporâneo, ninguém é inocente, ninguém é intocável, ninguém está a salvo, não há ninguém nem coisa alguma invulnerável.
Conhecer de tudo, provar de tudo, com mente e olhos indagadores e livres, mas nunca ter uma atitude subserviente e submissa para com a autodenominada alta cultura e a grande arte.
Não uma atitude reverente, intimidada, mas uma atitude em que a curiosidade seja maior que o respeito.
Saber de tudo, mas usar da maneira que quiser: citando, excitando, deturpando, reinterpretando, copiando, roubando, se apropriando, profanando seus templos, derrubando seus ídolos, saqueando seus túmulos. Ou seja, fazer com a cultura erudita o que ela fez com a cultura popular. Um passo à frente da antropofagia modernista e do sincretismo popular.
A cultura universal/hegemônica como uma luz e não como uma venda para os olhos e o conhecimento importado visto, não como uma flor de plástico estranha e artificial – embora com o deslumbramento habitual – e sim como o adubo de um novo arbusto, autóctone e tropical.
Em face ao pensamento único, muito mais que resistência, indisciplina intelectual é a arma do artista novo.
A uma nova ordem, contrapor uma nova desordem.
O artista novo não pode ser um repetidor de velhas lições. Contra a sobrecarga de informação, o espírito crítico e o despojamento anárquico.
Nova arte = invasões. Invasões bárbaras.
Uma nova barbárie, civilizatória, e não a velha barbárie, esquiva e dissimulada, praticada em nome dos altos valores da modernidade, do progresso, da democracia, da liberdade e da justiça.
Fazer arte como bárbaros: inquietos, sem inibições, sem cautelas, com amor pela desordem, isto é, pela diversidade e permanente mutabilidade.
Diversidade que possibilita a unidade.
Variedade que une ao invés de separar.
Desagrilhoar a língua, ser poliglota em seu próprio idioma.
Fazer arte em meio aos atritos e ambigüidades contemporâneos, onde heterogêneo e diverso é aquilo que está nascendo.
Uma arte corajosa, sem medo de ser contraditória, de ter flancos abertos por todos os lados por onde possa ser atacada e despedaçada, e não uma arte com a covardia elitista da velha arte contemporânea.
Uma arte contraditória, mas sem ambigüidades, onde ninguém possa estar a salvo do erro e as circunstâncias aprendam a dançar.
Rio de Janeiro, novembro/dezembro de 2002.
Euro S.R.
Este texto é dedicado a Avicena, médico-filósofo da Idade Média que marcou as culturas muçulmana, judaica e cristã, e a universidade européia, livrando-a dos limites da escolástica.
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