O velho contemporâneo

Para Domingas

“Depois do Cubismo, a geração a que pertencemos encontrou no mundo artístico somente um monte de ruínas.    A análise cubista não nos tinha deixado nenhuma das velhas tradições sobre que apoiarmo-nos, por mais frágil que fosse. Estávamos obrigados a partir do zero. Nos encontrávamos diante deste dilema: ir mais além dos cubistas no caminho da destruição ou buscar novas bases sobre as quais construir uma nova realidade artística.”

                                            Naum Gabo (Londres, 1937)

                              “A história é nossa e ela é feita pelos povos”.

                                                           (Última frase de Salvador Allende, pouco antes de sua morte no Palácio de La Moneda no Chile.)

“Creio que são os povos que fazem a história, não os heróis.”

                             Laura Restrepo, escritora colombiana.

“Raramente os vi gemer, mesmo na noite seguinte ao castigo, por pior que tivesse sido. O povo sabe resistir às dores.”                                                                                                           Dostoievski  (in “Recordações da Casa dos Mortos”.)

O contemporâneo ficou velho.

Idéias velhas passaram a ser vendidas como idéias novas.

Os adultos foram infantilizados pelo Pop.

As crianças foram estupradas por uma pedofilia comercial que as transformou em precoces consumidores.

As mulheres conseguiram se libertar de várias coisas menos da moda e da questão de classe.

A questão de gênero não apaga – e não supera – a questão de classe.

O papel da mídia passou a ser muito mais o de esconder do que o de mostrar os fatos, muito mais o de confundir do que o de esclarecer. (Qualquer tentativa de ajuda do Estado às classe populares, por exemplo, por menor que seja, é sempre taxada de “assistencialismo”, quando o grande assistencialismo, na verdade tem sido, desde sempre, aos grandes proprietários de terra, aos bancos e aos empresários, e isto é visto quase como um “direito divino”…)

A notícia virou uma mercadoria – que se vende e se compra – como qualquer outra.

E houve, por fim, o empoderamento dos medíocres.

O Pós-moderno, além de uma série de outras coisas relativizou também aquilo que chamamos de caráter.

Quanto mais se fala em Deus, mais o Diabo age.

Quanto mais se fala em Pátria, mais a soberania nacional é aviltada, mais o país se transforma em “quintal” estrangeiro.

Os que falam em Deus não estão interessados em solidariedade, mas em discriminação.

Os que falam em Pátria não estão interessados em pessoas, mas em interesses (econômico-ideológicos).

A classe média, que até então pensava atrelada ao pensamento da classe dominante, reproduzindo-o, a partir do advento do Pós-moderno, simplesmente deixou de pensar (o pensar passou a ser uma atividade de “especialista”).

A Direita passou a usar um discurso de cartilha anti-comunista dos anos de 1950 (Guerra Fria) e a Esquerda passou a ser pautada pela Direita e a falar apenas para si mesma, para seus próprios pares, deslocada do povo (como a arte contemporânea); uma Esquerda na defensiva, fragmentada, moralista, acadêmica e classe média (o que chega a ser quase uma contradição em seus próprios termos).

Uma Esquerda que não tem competência para se unir, simplesmente não tem competência para chegar ao poder (e governar).

O povo, mesmo quando erra, acerta.

A classe média, mesmo quando acerta, erra.

O povo tem um pensamento orgânico, muito diferente do pensamento da classe média, enquadrado e pautado pela elite.

Por que nossos médicos são tão conservadores e submissos à indústria farmacêutica internacional?

Por que nossos economistas são tão alienados em relação ao humano e submissos às agendas e agências internacionais?

Por que nossos juízes são tão elitistas, que possuídos por uma espécie de “síndrome de Maria Antonieta” chegam a descolar-se do real a tal ponto de (ainda) considerar a questão social como caso de polícia?

Por que nossos jornalistas são tão sabujos de seus patrões e tão propensos a encarar a notícia como espetáculo (ideológico)?

Por que nossos generais são ainda tão presos à ideologia da Guerra Fria, a ponto de considerar o seu próprio povo como inimigo (interno)?

Para eles, “povo” é apenas da classe média para cima; da classe média para baixo, o que existe é uma massa indefinida e amorfa que precisa ser domada; ordem para os “de baixo” e progresso para os “de cima”.

Simples: porque todos eles são “técnicos”, “profissionais” e “especialistas” oriundos da classe média.

E o “ferrete” de sua classe social os marca indelevelmente – exatamente como no passado se marcavam os escravos – para a submissão à classe dominante.

A classe média é um estrato social de “servidores”.

Ela existe para servir aos interesses da classe dominante.

Por isso o artista contemporâneo é tão submisso à academia, ao sistema de arte e ao mercado.

Ao ser transformada em mercadoria, a arte passou a exigir cada vez mais “especialistas” que a manipulassem “adequadamente”, houve então a ascensão do curador e os artistas foram transformados em “profissionais bem sucedidos”, isto é, em “servidores”. (Havia terminado a época do artista romântico que morria de tuberculose…).

Oriundos da classe média, a sua marca de nascença é a servidão voluntária (até suas “transgressões” são transgressõezinhas de cartilha, “receitas de bolo” escolares, inócuas, consentidas e previsíveis como um filme B policial).

O artista hoje, antes de ser criador passou a ser servidor: é o próprio mercado que define e direciona a sua “criatividade” (inclusive com cursos “especializados”).

No Renascimento o artista servia a um Príncipe (ou à Igreja, o que na época era praticamente a mesma coisa) determinado, concreto e explícito, com interesses bem definidos; o artista contemporâneo serve ao “Príncipe Mercado”, um Príncipe invisível, abstrato e indefinido, com interesses muito pouco claros e onde tudo é escamoteado.

O artista contemporâneo vive sob a farsa da liberdade.

A liberdade da arte é exatamente igual à liberdade econômica: uma farsa.

O “Príncipe Mercado” é e está sempre onipresente e oculto.

Como um Deus. Ou como um vírus…

A arte, no entanto, deve refletir os vários modos humanos de ser e não ficar repetindo os velhos “mantras” hegemônicos.

A arte só passa a não servir para nada quando o humano passa a não servir para nada; enquanto houver o humano haverá a arte.

Por isso a arte está sempre em estado de guerra; a arte dogmática, conformista e oficialista é uma arte em estado terminal.

A paz duradoura não existe porque as relações de força (e poder) estão sempre se modificando: o justo hoje, torna-se injusto amanhã.

A arte, no fundo, é uma revolta do homem contra toda forma de opressão: intelectual, estética, metafísica e social.

Os critérios de juízo para a nova arte do século XXI já não podem mais ser os mesmos que se forjaram fundados na experiência do “contemporâneo” e do “pós-moderno”, uma experiência esgotada na autoritária arte “conceitual” e na velha arte “anti-arte”.

Estamos num outro ciclo, que não sabemos ainda o que é, o que deixa os velhos “leões-de-chácara” da velha arte contemporânea (hoje apenas uma “grife”) de cabelo em pé…

O problema do servidor é que sempre haverá um outro servidor mais “adequado” para tomar o seu lugar: a servidão é sempre e continuamente atualizada.

[“Passei 33 anos e 4 meses no serviço ativo, como  membro da mais ágil Força Militar do meu país – o Corpo de Fuzileiros Navais. Servi em todos os postos, desde Segundo Tenente a General. E, durante tal período, passei a maior parte de meu tempo como guarda-costas de alta classe, para os homens de negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em resumo, fui um quadrilheiro para o capitalismo…”

“Foi assim que ajudei a transformar o México, especialmente Tampico, em lugar seguro para os interesses petrolíferos americanos, em 1914.

Ajudei a fazer de Cuba e Haiti lugares decentes para que os rapazes do National City Bank pudessem recolher os lucros… Ajudei a purificar a Nicarágua para os interesses de uma Casa Bancária Internacional dos Irmãos Brown, em 1909 – 1912. Trouxe a luz à República Dominicana para os interesses açucareiros norte-americanos em 1916. Ajudei a fazer de Honduras um lugar “adequado” às Companhias Frutíferas Americanas, em 1903. Na China, em 1927, ajudei a fazer com que a Standard Oil continuasse a agir sem ser molestada”.

“Durante todos esses anos eu tinha, como diriam os rapazes do gatilho, uma boa quadrilha. Fui recompensado com honrarias, medalhas, promoções. Voltando os olhos ao passado, acho que poderia dar a Al Capone algumas sugestões. O melhor que ele podia fazer era operar em três distritos urbanos. Nós, os fuzileiros, operávamos em três continentes”.

          General Smedley D. Butler (in Common Sense”, novembro de 1935.)]

O General Smedley D. Butler fez tudo o que fez para proteger e expandir os interesses do seu país.

Os nossos generais fizeram tudo que fizeram – golpes, intervenções, perseguições políticas, tortura, assassinatos, etc. – para proteger e expandir os interesses de um outro país (os Estados Unidos).

A doutrinação ideológica os deixou cegos para os interesses de seu próprio povo.

O Golpe de 1964, por exemplo, que na verdade foram três golpes – um parlamentar, um empresarial e um militar – poderia ser resumido nas palavras de um de seus generais: “Nós seguramos a vaca para os americanos mamarem”. – Gal. Antonio Carlos de Andrada Serpa.

O que, no fundo, não os distingue em nada dos outros servidores de classe média: médicos, economistas, jornalistas e juízes.

A função das Forças Armadas de um país, no entanto, não é zelar pela sua soberania?

Nenhuma classe dominante ou nação hegemônica tem as mãos limpas.

O capitalismo, sem dúvida, é o melhor regime do mundo… para os capitalistas.

O mundo hoje é visto pelos “óculos” de um pensamento fundamentalista, hegemônico e superado (que é vendido como “novo”), que ignora a diversidade e o pluralismo, de modo que boa parte de seus problemas básicos são “apagados” por esses “óculos” seletivos; e que quer se impor como o único pensamento “explicativo” e “abrangente” aceitável: o liberalismo (cujas idéias, de tão repetidas são “naturalizadas” a ponto de serem aceitas quase como uma contingência inevitável da vida moderna, como o trânsito, o tráfico de drogas e os bancos).

O essencial, no entanto, é mantido oculto e intocado.

Como Deus. Ou como o Mercado.

O poder se faz mais pelo que esconde do que pelo que mostra.

O liberalismo é um pensamento filosófico utópico do século XVII; o neoliberalismo “científico” é apenas um truísmo cínico e hipócrita do liberalismo utópico; e o ultraliberalismo atual é um pensamento conservador e totalitário incompatível com a democracia.

O contemporâneo “canônico” quer voltar ao século XVII: ao liberalismo “utópico” de John Locke e ao “espírito baconiano” (de Francis Bacon) de domínio e controle através de uma “engenharia do comportamento” (antes aplicada a animais e hoje aplicada ao humano); ele quer congelar o pensamento e fazer um retorno ao já superado.

O hiperindivíduo do ultraliberalismo é uma espécie de “super-homem” do passado.

O “mundo pet” tem tanto a ver com a natureza quanto o “mundo ultraliberal” tem a ver com as sociedades humanas.

Sociedades humanas são “organismos” complexos e “multicelulares”, com as “células” (indivíduos) mantidas aglutinadas pelo “cimento” da interação e da interdependência (o coletivo); são organismos sociais integrados, e não um amontoado de indivíduos “unicelulares” com vida própria e independente dos demais (o indivíduo indiferente e egoísta).

A famosa frase “a sociedade não existe, o que existe são indivíduos” seria apenas uma refinada tolice, não fosse a carga de hipocrisia e má-fé que ela contém, na medida em que seria o mesmo que dizer: “o corpo humano não existe, o que existe são células independentes entre si”…

Sociedades ultraliberais são sociedades “transgênicas”.

O modelo ultraliberal, excessivamente simplista (quase “naïf”) coloca a vida em sociedade no indivíduo e em processos isolados e não como consequência de um “mosaico” de fatores atuando ao mesmo tempo; frágil e intelectualmente desonesto [pois, como na velha historinha infantil, nos promete uma “cenoura” inalcançável (quanto mais nos aproximamos dela, mais ela se distancia) pendurada na ponta de uma vara manipulada pelo seu “dono”, que nos fará – como o burro da historinha – carrega-lo nas costas, na esperança de um dia alcança-la…] ele quer colocar o individual – o dono da “cenoura” (e do burro…) – comandando (e reprimindo) o coletivo.

Sociedades são feitas de uma constelação de forças dinâmicas e não de uma única força estática, o indivíduo e sua vontade “infantil”.

E essa força “única” é incapaz de se mover e expandir sem se deslocar em direção às outras forças; em sociedade não há lugar para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento qualitativo do indivíduo isolado, sua expansão somente pode ocorrer às custas de todas as demais forças (o coletivo, ou seja todos os demais indivíduos).

Exatamente como em um organismo.

A sua abordagem mecanicista da vida e as suas retrógradas tendências atomísticas são insuficientes para apreender (e compreender) a interação entre indivíduo e sociedade; os elementos do funcionamento social estudados sob esse modelo dogmático são apenas secções transversais de uma contínua corrente que tem que ser entendida dialeticamente e não mecanicamente em seu confronto diário com a realidade em mutação.

Os complexos padrões do comportamento humano simplesmente não podem ser reduzidos a meras respostas condicionadas e a processos “fisiológicos” governados pelas “leis” da economia.

O comportamento social não pode ser reduzido à uma versão “refinada” do velho conceito cartesiano de “máquina humana”, apenas “atualizado” pelo de “máquina social”.

Pensamentos estáticos são incompetentes para compreender sociedades dinâmicas.

O individualismo é uma utopia burguesa do século XVII.

No século XXI a utopia se transformou em hipocrisia.

Para se ter certezas deve-se pagar o preço da renúncia a uma verdadeira inteligência (que pressupõe a dúvida).

O conformismo se transformou numa utopia capitalista.

Ao invés de mudar o mundo, as pessoas hoje querem apenas mudar o som do seu celular.

A sociedade do espetáculo é uma sociedade profundamente ideologizada; mas ideologizada em seu pior sentido: a ideologia da alienação (“panis et circenses”).

O novo fascismo que se anuncia não virá de coturno e uniforme militar à la Hitler ou Mussolini (isso é coisa do passado); ele virá com ternos bem cortados, camisa social italiana, gravatas francesas e sapatos de cromo alemão, a fala macia e o olhar blasè, a insensibilidade de um economista e a frieza de um cirurgião, falando as coisas que as pessoas comuns, ideologicamente condicionadas, querem ouvir (a tecnologia que pode ser um eficaz instrumento de libertação está sendo usada para idiotizar as pessoas); ele não virá como um gorila, um monstro, mas como um vírus, com toda sua letalidade, e por isso, muito mais pernicioso e muito mais difícil de ser identificado; ele virá como um totalitarismo da ignorância e da mediocridade.

Às vezes Deus volta, mais velho e mais cansado.

As independências não deram fim ao colonialismo, o que terminou foi o colonialismo “histórico”, mas ele continua por outras formas e outros meios, invisíveis e sutis, através principalmente da tecnologia e da mídia (“é mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade do que a verdade nua e crua”); apenas em alguns casos e sempre localizados, é que a intervenção militar se impõe.

Por isso é necessário saber distinguir quem nos domina, quem é o verdadeiro poder e quem é apenas um seu representante avassalado.

A interferência imperial-colonialista se dá das formas mais sofisticadas e sub-reptícias, na economia, na política, na cultura, na ciência, na arte e no próprio pensamento crítico; o verdadeiro poder deixou de ter medo de ser confrontado, sente-se seguro e inabalável em sua arrogância.

A única coisa eterna, porém, é a mudança.

Na vida, ao mesmo tempo, tem sempre algo começando e algo terminando.

O problema dos reacionários e dos conservadores é que eles querem parar a roda da História, deter o seu fluxo e congelar a vida.

A decadência é o retorno ao já superado.

A vida e a arte são feitas de intermináveis direções e desvios.

Quem faz arte de vanguarda hoje é o artista popular (cordelistas, por exemplo, estão usando o WhatsApp para fazer seus desafios) e não os filhotes da academia.

Os filhotes da academia continuarão fazendo – como sempre fizeram – uma arte competente mas… acadêmica; uma arte sem tesão.

A pior burrice é a burrice erudita.

Idéias abstratas são apenas idéias abstratas; elas só se tornam “visíveis” sob a forma concreta, isto é, “desfiguradas” pelo real: só o real é capaz de materializar uma idéia.

A grande questão portanto é que além da arte contemporânea “canônica” existem artes contemporâneas independentes de seu viés hegemônico, artes não adjetivadas, contemporâneas apenas no sentido cronológico, apenas como artes de seu tempo.

A arte contemporânea, como o próprio contemporâneo, é plural.

Como a verdade, ela é a soma de suas várias versões.

Nenhuma época tem a sua “fatalidade” artística; essa “fatalidade” é construída pelo poder – ideológico, econômico e artístico – e pelos seus interesses (mesmo quando disfarçados em “rupturas”).

Toda época tem uma vasta gama de interesses e o que existe é a prevalência dos interesses da classe dominante; o que não quer dizer que os demais interesses sejam extintos, eles apenas são “apagados” (como num palimpsesto) podendo a qualquer momento vir à tona.

As aspirações da classe dominante não são necessariamente as aspirações de toda a sociedade, elas são apenas as aspirações dominantes.

Toda arte tem sentidos opostos, toda arte é dialética, artista e “público” são as duas faces da mesma moeda; por isso, por mais bem intencionadas que sejam, as atividades de “formação de público” não passam da mais deslavada doutrinação estética (e ideológica…): não se “forma” público, se dialoga com ele.

Arte é diálogo ou não é nada.

A nova arte quer se libertar de todo queixume pequeno-burguês decepcionado e cansado de mercadejar, de toda choramingação pós-moderna, de toda afetação parva, de toda histeria, de toda propaganda grosseira disfarçada em “teoria” e de toda estupidez de mercado; ela não quer ser uma arte cuja “razão” seja exagerada e artificialmente estendida, nem que a “emoção” seja flacidamente amolecida e que, por mais que empregue inúmeros novos meios, nela haverá de perdurar sempre algo como a serena riqueza e a lúcida audácia de um Villa-Lobos.

A arte compõe o caráter de uma sociedade.

Ela simplesmente não pode se desenvolver de acordo com um estilo dominante (imperial ou de classe); a idéia de que a presença de um estilo uniforme é que caracteriza uma cultura é uma idéia equivocada, na medida em que é justamente a ampla variedade de estilos que constitui a característica de uma cultura, onde as contínuas sínteses acabam por destruir as falsas noções de fixações estáticas e particularistas, fazendo prescindir – contra toda violência neocolonial – de um centro dominante (quer se trate de um centro de classe ou de nação): a arte do século XXI, contra todas as expectativas acadêmico-imperialistas é uma arte da multiplicidade, tal como a multiplicidade do humano.

O ser humano é limitado e finito em meio a uma realidade ilimitada e infinita.

Por isso, assim como a linguagem representa em cada indivíduo a acumulação de milênios de experiência coletiva, assim como a ciência equipa cada indivíduo com o conhecimento adquirido pelo conjunto da Humanidade, assim a arte recria para a experiência de cada indivíduo, aquilo que ele não é, isto é, a experiência da Humanidade em geral, mostrando nesse processo de recriação a realidade como passível de ser transformada.

O individualismo é uma utopia burguesa do século XVII.

A concepção da arte de um religioso é diferente da de um homem de ciência, o mesmo acontecendo em relação à questão de classe, e o artista não escapa a isso; a diversidade individual e/ou de grupo conforma as orientações artísticas.

Um artista popular vê a arte de modo diferente de um artista erudito.

Não existe uma única maneira de se ver a arte como não existe uma única maneira de se ver a vida.

A arte, mesmo a mais individual, a mais individualista, a mais “pura”, tem – independente da vontade do artista, e mesmo contra ela – uma atitude ou de solidariedade ou de repulsa em relação ao sistema social dominante e, por mais que o artista o negue, ela acaba por ser inevitavelmente uma espécie de “propaganda” (a favor ou contra).

Nenhuma arte está “acima” do sistema; a arte como uma atividade “espiritual” só se dá num contexto material.

A forma, em si mesma, já não pode mais ser motivo de discussão, as novas interrogações se referem principalmente ao conteúdo.

O que se chama de “conceito” hoje é uma excrescência que não tem mais nada a ver nem com a forma nem com o conteúdo, exatamente como aconteceu com a “calça rasgada”, que nos anos de 1960 tinha um significado de protesto hippie e hoje é apenas “moda”, quase “chic”…

O artista não está acima de seu tempo do mesmo modo que não está acima de sua classe.

A arte, ao mesmo tempo que afasta, enlaça o real.

Os sentidos se decifram e se devoram uns aos outros, e a arte é sempre inconclusa.

Quanto mais “pura” a arte, mais vazia.

O artista erudito é incapaz de evoluir sem a sua iniciação popular.

O passado da obra de arte e o passado do espectador se fundem.

Mas trata-se ainda de espectador?

O espectador não é uma testemunha passiva, mas a condição mesma da obra; sem ele a obra existe apenas em potência, à espera do seu gesto, o gatilho que a dispara.

O artista faz arte sempre em legítima defesa.

O espectador “especializado” – crítico, curador, historiador da arte, etc. – é apenas um “voyeur” da relação artista-espectador comum.

A diferença entre “arte sentida” e “arte pensada”, concepções que marcaram a arte ocidental do século XX com reflexos até hoje na arte contemporânea “canônica”, é a mesma diferença que existe entre fazer sexo sem e com camisinha.

A “arte pensada” é uma arte “com camisinha” que se protege da “contaminação” na teoria, na história da arte e no “conceito”.

Ela pretende se fundar não na sensibilidade mas na “inteligência” (como se não houvesse uma inteligência sensível; como se não houvesse inteligência na sensibilidade) e que por isso precisa ser “compreendida” antes de ser “sentida”, o que não passa de um mero resquício do velho pensamento mecanicista cartesiano.

Sob o signo do “contemporâneo” o pensamento na economia, na política, na cultura e na arte parece querer voltar ao século XVII.

Lidar com os elementos da arte fora de seus quadros institucionais é como formulá-la pela primeira vez; é como partir da não-significação para a significação.

Na “arte sentida” o artista sempre se defronta com a arte desarmado, sem nenhuma possibilidade definida e com todas as possibilidades em aberto (a teoria não é uma arma, mas uma carga, que às vezes ajuda e às vezes atrapalha).

O que importa, no fundo, não é “fazer arte”, mas revelar o quando de vida se deposita nela.

Ao fim e ao cabo, arte é revelação.

O homem, como a palavra, só existe “em relação a”.

Do mesmo modo que a palavra só funciona na frase, na relação com outras palavras, o humano só se manifesta na relação entre humanos, isto é, em sociedade, no coletivo.

A individualidade da palavra, como a individualidade do homem só se manifesta na presença de outras palavras e de outros homens; a sua significação depende dos outros (palavras ou homens).

O individual só se manifesta no coletivo.

Uma palavra sozinha é um signo, não um significado.

Ela só adquire significado no contato com outras palavras.

Um homem sozinho é um improvável ser orgânico; ele só adquire humanidade no contato com outros homens.

O dicionário está para a palavra assim como o museu ou a prisão estão para o homem.

A visão atomística dominante em nossa sociedade, centrada no indivíduo, quer “enquadrar” a vida como a um soldado raso, reduzindo toda sua riqueza e complexidade a estruturas elementares e abstrações mecânicas.

Muito mais que uma estrutura funcional a vida é um processo dinâmico de interações e interdependências.

A vida é dialética.

Como a arte.

Vivemos um momento histórico de tentativa de suprimir o livre pensamento e impor uma ortodoxia econômica e política que não tolera desvios, dissenções, inconformismos e “heresias”, e que, em última instância não tolera uma mente livre e uma sociedade aberta.

Cada vez que o homem comum contemporâneo volta do trabalho para casa ele volta menos livre.

Esse homem está cada vez mais desobrigado de pensar, o pensar passou a ser coisa de “especialista”, o pensamento livre – na economia, na política, na cultura e na arte – foi substituído por “reflexos condicionados” de pensamento.

O livre pensar foi substituído por reducionistas “modelos” de pensamento – o pensamento reflexo – com sua clara relação causal entre estímulo e resposta e sua previsível “confiabilidade” mecânica.

Comida fast-food = pensamento fast-food.

Precisamos voltar a pensar.

Sem condicionamentos.

E principalmente sem medo do imprescindível erro.

Hoje, honestidade intelectual é mais importante que honestidade moral.

Assim como o “sertanejo universitário” é a música do agronegócio e a arte contemporânea canônica é a arte do neoliberalismo, o neopentecostalismo eletrônico (“evangélicos”) é a religião do ultraliberalismo.

Com sua Teologia da Prosperidade e sua Ética de resultados (“é dando que se recebe”) esta religião retroagiu a um pré-cristianismo, trocando a solidariedade humanista do Novo Testamento (“amai ao próximo como a ti mesmo”; “os últimos serão os primeiros”; “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”; etc.) pelo obscurantismo fundamentalista dos Profetas odientos, raivosos e misóginos do Antigo    Testamento.                         

O neopentecostalismo é hoje uma espécie de Calvinismo degradado, muito mais uma religião de fariseus oportunistas que de cristãos.

E, como o ultraliberalismo, é incompatível com a democracia.

Por que temos tanta dificuldade em aceitar a nossa própria humanidade?

Ainda que sejamos apenas um acidente, apenas um agregado de átomos capaz de refletir sobre a própria existência, ainda assim devemos menosprezar a nossa humanidade?

Será que devemos igualmente menosprezar o Universo caso não exista um “código oculto” da Natureza, um conjunto de leis que expliquem todos os aspectos da realidade?

A ciência moderna nos mostra que não existe um grande plano da Criação e põe a humanidade no centro do Cosmo.

Humildemente.

Ao contrário das “explicações” orgulhosas, dogmáticas e autoritárias da religião, que em face a essas descobertas quer retroceder ao passado “mágico” e a ignorância primordial.

Talvez o homem não seja a medida de todas as coisas como queria Protágoras (450 anos a.C.), mas seja a “coisa” que pode medir, como nos propõe o físico Marcelo Gleiser em seu livro “Criação Imperfeita” (2012): “Enquanto continuarmos a nos questionar sobre quem somos e sobre o mundo em que vivemos, nossa existência terá significado”.

E a arte talvez seja o instrumento mais apropriado para esse tipo de questionamento.

Mais apropriado inclusive que a ciência, na medida em que a arte instiga e a ciência pacifica.

A ciência clássica – cartesiano/newtoniana – se transformou em uma religião leiga.

Trocou a oração pela tabuada, transformando a tabuada em uma espécie de oração, o sacrilégio mudando apenas de objeto: o discurso que conteste uma adição ou uma multiplicação será apedrejado.

O fundamentalismo da lógica é muito parecido com o fundamentalismo religioso.

A objetividade pura tem uma prepotência violenta; dizer que 6 não é maior do que 5 no Ocidente capitalista hoje, seria o mesmo que dizer na Europa medieval que Deus não existia.

Existe por outro lado, um modismo “blasè” de dizer-se que a arte “não serve para nada”.

Fruto da subjugação da arte contemporânea a um pensamento niilista pós-moderno, a um utilitarismo ideológico e a um pragmatismo cínico neoliberal.

A arte só não serve para nada quando o humano passa a não servir para nada.

Quando o capital passa a valer mais que o humano, a arte passa a valer menos que o humano; é quando ela passa a não valer mais nada e se transforma em mercadoria.

Quando a arte não serve mais para nada ela só serve para ser vendida.

Por que se questiona a utilidade da arte e não se questiona, por exemplo, a utilidade de um determinado refrigerante açucarado?

Por que essa porcaria açucarada é mais importante (inclusive simbolicamente, como afirmação de um certo tipo de vida) do que um poema?

Que tipo de sociedade é a nossa?

Uma sociedade do supérfluo?

E que por isso considera supérfluo as coisas essenciais?

Como a arte.

E como o humano.

Será que no futuro a nossa civilização será conhecida como uma civilização predatória de refrigerantes açucarados e sanduíches gordurosos?

Para os antigos gregos a utilidade pragmática era representada pela “técnica” (TEKNE) e era considerada perigosa, como um mero meio, pois não tendo nenhuma determinação humana, pode ser aplicada indiferentemente, de qualquer modo e para qualquer fim.

O conceito de utilidade englobava o de fim humano; o verdadeiro fim era concebido como término (TÉLOS); PRAXE em grego designa a ação que tem sentido completo em si mesma, de modo que o fim “prático” era considerado como cumprimento.

A utilidade da beleza é ser bela.

E a beleza só é bela em relação a.

Da própria beleza, inclusive, se pode fazer uso “belo” ou “feio”.

Como da sabedoria.

Quem vende a sabedoria por dinheiro, desde a Antiguidade, é chamado de sofista.

A poesia já serviu para cantar os feitos de heróis e divindades; a pintura para representar belos corpos de homens e mulheres; a escultura para adornar altares e templos; e a música para acompanhar danças rituais; hoje, a arte servindo ao capital, não serve para nada (a não ser para ser vendida).

No século XX a Esquerda marxista era criticada por seu “materialismo histórico” determinista, acusada de reduzir a História a um mero processo mecânico por derivar realidade social de desenvolvimento tecnológico.

Hoje esse mesmo determinismo é exaltado pela Direita capitalista.

Existe uma glorificação da tecnologia e um entusiasmo estranhamente ingênuo.

Entusiasmo que quer alçar Facebook, Twitter e Youtube, por exemplo, ao status de forças modeladoras da sociedade.

O mesmo velho e requentado determinismo com novas roupagens.

O que mudou?

Apenas os interesses ideológicos (e econômicos, of course).

E neste processo não só se superestima o efeito das mídias eletrônicas como se abre mão de qualquer tipo de crítica às novas tecnologias.

Pois, apesar de suas inegáveis possibilidades participativas, o espaço eletrônico é tudo menos uma estrutura isenta das relações de poder.

Os grandes conglomerados da mídia e as grandes empresas têm muito mais chances de encontrar eco do que iniciativas de grupos de cidadãos ou de indivíduos isolados.

Filtros de conteúdo, bloqueios de páginas e sua retirada dos servidores, por outro lado, passaram a fazer parte integrante do cotidiano da rede.

A rede pode ser mais permeável do que as mídias tradicionais, mas isso não quer dizer que o espaço virtual esteja fora da sociedade.

Pelo contrário, ele faz parte dela tanto quanto as igrejas e os bancos.

As mídias eletrônicas, sem dúvida, abriram as portas para uma real democratização da comunicação, mas também promoveram a fragmentação, a despolitização e a superficialidade, facilitando a manutenção do poder maior, do verdadeiro poder, criando uma espécie de democracia “fascistizada”.

Tecnologia tem dono e não uma “dádiva divina”.

Movimentos sociais não são gerados pelos meios tecnológicos por eles utilizados.

Os movimentos sociais do século XIX não foram gerados pelas mídias impressas (livro e jornal) empregadas por eles; nenhuma tecnologia, por si mesma, é capaz de produzir empatia e solidariedade reais, que só afloram em encontros interpessoais.

“Revoluções Facebook” estão inseridas na vasta gama de “Revoluções Fake” – na política, na economia, no comportamento, na cultura e na arte – que o velho Poder dissemina pelo mundo como “novidade”.

Só pode ser chamado de Revolução aquilo que altera a essência de um sistema social, que no caso do capitalismo é a propriedade.

“Revoluções Facebook” são apenas fantasias liberais para a classe média conservadora.

A euforia tecnológica atual é puramente ideológica.

Os antigos gregos tinham lá as suas razões para desconfiar da TEKNE…

A arte é a perda da identidade pessoal em favor das identidades dispersas.

Na arte somos nós e somos outros ao mesmo tempo.

Só nos tornamos humanos na presença de outros seres humanos.

Só nos tornamos humanos através da vida de outros seres humanos.

A arte nos possibilita “viver” essas outras vidas.

A arte é incompatível com o individualismo.

Do mesmo modo que é incompatível com a propriedade.

A arte opera desvios e por isso é rebelde a explicações.

Daí porque – mesmo domada – sempre incomodou os poderosos.

A arte tem dentro de si diferentes idades, ela anda para   frente e volta para trás, ela pode vislumbrar o futuro e reverenciar o passado, ela tem a sua própria inteligência e um apurado sentido do absurdo.

A arte é uma amante insaciável e infiel que exige do artista todo o seu sêmen criativo.

Ela é codificada e permeada pela linguagem e regulada por discursos que a circunscrevem como prática social.

Como o sexo.

Em arte, no entanto, o incesto não é tabu, mas, ao contrário, é até saudável.

Como a linguagem, a arte é a desnaturalização da representação, do mesmo modo que a sexualidade é a desnaturalização do sexo.

No mundo contemporâneo o objeto de arte já nos chega sempre “explicado”; a arte, no entanto, não só é maior que qualquer explicação, como também é rebelde a elas.

Toda interpretação única é um equívoco.

Na arte como na vida, qualquer interpretação é uma interpretação possível entre várias.

O discurso autoritário de que “poucos” conseguiriam ler e entender um trabalho artístico contemporâneo sem a intervenção de um “especialista”, mais que elitismo é apenas e simplesmente a mais deslavada reserva de mercado.

O capital na arte contemporânea acadêmica é facilmente dimensionável pela sua característica de entretenimento conceitual, pelo cinismo ultraliberal da provocação conservadora e por um “pensamento crítico” colonizado (a ironia é a arma dos impotentes).

A “6ª Bienal do Caribe”, uma espécie de “Batalha do Itararé” (a batalha que não houve) das artes visuais, organizada em 1999 por Maurizio Cattelan e pelo curador Jens Hoffmann foi concebida para não apresentar nenhuma obra.

Ambos convenceram museus e colecionadores a financiar uma Bienal que reuniria Olafur Eliasson, Rirkrit Tiravanija e outros, que não enviaram nenhuma obra, mas receberam os seus “cachês”.

Crítica, questionamento, autodenúncia, hipocrisia, má fé e alto faturamento.

Durante todo o século XX e entrando pelo século XXI temos ouvido falar em crise, quase como um mantra – da economia à arte, passando pela política, pela ética, pela família, pela moral e pelo Estado (só não se fala – nunca – em crise da propriedade…) – ; alguma coisa sempre está em crise o tempo todo (menos obviamente a propriedade); enquanto isso o Ocidente aperfeiçoava o seu esforço para não mover um palmo de suas “raízes”; e talvez um universo assim tão ansioso de permanência só seja possível com a ajuda dessa invocação obsessiva.

Onde quer que você vá sua crise irá junto.

Toda crise leva a uma nova crise que é a crise gerada pela vertigem diante de um território a se descobrir.

Não se pode definir o que ainda não existe.

O modelo empregado para se interpretar o mundo contemporâneo está se esgotando e é preciso se inventar algo que o substitua.

E a necessidade de oferecer rotas alternativas à psique coletiva é comum aos diferentes momentos de crise, e é aí que surgem as oportunidades para os charlatães de todos os tipos – políticos, econômicos, religiosos – , por um lado, e para os artistas, por outro. (Não que não existam também artistas-charlatães…).

A divisão rígida entre sujeito (o observador) e objeto (o observado) estabelecida pela ciência clássica teve suas fronteiras “borradas” pela física quântica.

Passou a ficar cada vez mais difícil identificar o “sujeito”, que pensa, sente, contempla e analisa e o “objeto”, separado dele, que é pensado, sentido, contemplado e analisado; às vezes é o “objeto” que pensa, sente, contempla e analisa o “sujeito”.

Entre razão e emoção, consciência e alienação, sensibilidade e pensamento, e atuando em vários tempos históricos, a arte jamais é indiferente – mesmo quando deseja ser – , a sua intermediação se dá através dos extremos: ela está sempre no limiar.

Como a vida.

É a lembrança e não o esquecimento que nos torna humanos, e a lembrança é construída por milhares de vozes – o humano só se dá no coletivo – , é preciso apenas escutá-las, do mesmo modo que é preciso lembrar daquilo que continua pendente.

Abismo e passagem, a memória é um complexo diálogo com a memória.

Arte é também memória e por isso ela não pode permanecer estranha como um Deus ao cidadão comum.

Ela simplesmente não pode ser a reduplicação de discursos que já existem fora dela; a arte cria o seu próprio discurso.

A arte descongela o lugar comum.

É a história humana que faz o real passar ao estado de arte; toda arte tem um fundamento histórico; “arte” é uma palavra escolhida pela história, ela jamais poderia surgir da “natureza das coisas”.

O que caracteriza a arte não é a sua “substância” – na medida em que qualquer objeto pode se tornar arte – mas a sua “forma”, isto é, a sua linguagem; arte é “discurso”, é a “forma de falar” de um objeto, só pode existir arte através do humano.

Em arte o que é signo num sistema é significante em outro.

Arte é deformação.

Em arte a distância entre dois pontos pode ser imensurável.

A autenticidade em arte só pode ser alcançada ao preço da inautenticidade; quanto mais a obra força passagem para o interior, mais ela força passagem para o exterior; quanto mais ela dissolve a relação com o exterior, tanto mais ela dissolve a relação com o interior, numa dialética de dissolução que se sucede através dos extremos.

Como a vida.

A arte, do mesmo modo que a ciência, só pode prosperar se for o oposto da fé.

A crença ocidental de que a sua tradição produziu as únicas teorias sérias a respeito da realidade está começando a ser reconhecida como uma concepção estreita e culturalmente condicionada.

Várias outras civilizações desenvolveram sistemas de pensamento com uma variedade de abordagens – profundas e refinadas – que geraram um espectro de escolas filosóficas que vão do extremo materialismo ao extremo idealismo, do monismo absoluto ao completo pluralismo, passando pelo dualismo; escolas que desenvolveram numerosas e muitas vezes conflitantes teorias acerca do comportamento humano, a natureza da consciência e a relação entre mente e matéria; e que por se basearem no conhecimento empírico apresentam mais afinidades com a abordagem da arte e da ciência moderna.

A naturalização da desigualdade social entre nós talvez seja hoje a maior das corrupções: a corrupção de corações e mentes.

A ciência, a arte, a filosofia e a religião são construções humanas, narrativas criadas para “explicar” o mundo à nossa volta; e as “verdades” que obtemos – científicas, artísticas, filosóficas ou religiosas – mesmo brilhantes, como a lei da gravitação universal de Newton ou a teoria da relatividade especial de Einstein; ou ingenuamente pretensiosas como as várias narrativas religiosas, funcionam apenas dentro de certos limites; sempre existirão fenômenos que não poderão ser explicados por nossas teorias; seja pela humildade do saber, seja pela arrogância da fé.

Os problemas nunca acabarão, e as soluções também.

O que importa não é chegar a verdades absolutas (religião) mas ao conhecimento (ciência, filosofia, arte).

O que importa não é saber tudo, mas o querer saber.

As verdadeiras transformações se dão na transformação das visões de mundo.

Toda verdade é uma verdade parcial.

A busca pela perfeição e pelo divino já nos iludiu por tempo demais.

Precisamos de um novo começo, de uma nova busca.

Segundo as teorias da cosmologia moderna, somos resultado do improvável nascimento de um Cosmo que, por ter as propriedades certas, foi capaz de evoluir a ponto de gerar criaturas capazes de se perguntar sobre suas próprias origens.

Visão científica essa que é totalmente distante da mitológica criação premeditada e sobrenatural do Gênese, o primeiro livro do Antigo Testamento.

Mas será que essas teorias científicas serão, de fato, capazes de abarcar de forma completa a questão da origem de todas as coisas?

A visão dialética da arte pode não nos dar nenhuma resposta, mas, com certeza, deixará no ar, inúmeras perguntas.

Num mundo em que a informação se transformou em mercadoria e é apropriada pelo capital, o conhecimento e a liberdade se transformaram igualmente em mercadoria.

Passa a existir então uma espécie de fundamentalismo informativo que seleciona o que podemos e o que somos impedidos de ver, ouvir, falar e pensar, através de um mecanismo de distorção sistemática da realidade que acaba por produzir uma “obviedade imposta”, que torna secundário e invisível o que é principal e constrói fantasias estratégicas para justificar a dominação.

A arte, no entanto, mesmo cooptada e constrangida pelo mercado, e mesmo participando dessas mesmas relações de produção, por permitir vislumbrar o que escapa ao nosso controle e reconfigurar o caos, é capaz de navegar onde outras atividades naufragam, e por isso ser um antídoto a essa “obviedade”.

Pensar hoje se tornou um ato subversivo e o mito de Adão e Eva nos mostra que para o Poder – terreno ou divino – mais do que com a desobediência, é com o livre desejo e a curiosidade que ele se sente confrontado.

Talvez o que chamamos de crise seja apenas a emergência simultânea dos vários passados como negação do relato de que a História teve um único começo.

Toda crise nos impulsiona a ler tudo de um outro modo, a destruir o olhar anterior.

Inventar um novo mundo é inventar um novo olhar, aprender a ler o mundo como se nunca o tivéssemos feito antes.

Nunca haverá, no entanto, apenas um “novo mundo”, mas vários “novos mundos”.

Como observou Robert Musil, “nada é mais triste do que ver como um jovem vital e promissor se converte num adulto totalmente normal”.

O contemporâneo ficou velho.

Ele precisa redescobrir a sua própria juventude.

Rio de Janeiro, agosto, setembro e outubro de 2012.

         Euro S.R.

Esta entrada foi publicada em Textos de Reflexão. ligação permanente.